Nem sempre

Sex, 15 de Agosto de 2014 09:45 Patrícia Garrote
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CRÔNICA DE AGOSTO/2014

NEM SEMPRE

Duas da tarde naquela imensa sala de espera sem ar condicionado, o que poderia provocar uma sensação horrível de claustrofobia não fosse pelo prédio cheirando a novo, pontualmente a porta se abre e a jovem meeirinha anuncia os nomes das partes de um processo judicial. Com as identidades na mão, entramos todos vagarosamente, apesar de saber que o coração do casal estava batendo a mil por hora diante da expectativa de se encontrar, frente a frente, em um tribunal, após meses sem se falar, fazendo-se ouvir pelas vozes de seus advogados, no caso, eu e a nobre colega que aperta minha mão e sorri. Puxo a cadeira para a cliente se sentar, triste, quase chorosa. O ex-marido cabisbaixo não ousa olhar para a ex-esposa que se senta à sua frente. A juíza nos saúda com aquela paz que só os juízes possuem enquanto a promotora nos cumprimenta sorrindo com os olhos. Após exaustiva sessão, o acordo é finalmente homologado. Ao sair, o casal se esbarra na porta da sala de audiência. Sem graça, ele, o ex-marido, recua para dar passagem àquela que um dia teve em seus braços e a quem com certeza fez juras de amor eterno. Dava pra ver nos olhos dele e dela o quanto se amaram, o quanto foram felizes e o quanto sofreram com a separação. Nós, em profundo respeito, permanecemos imóveis, segurando a respiração diante de tão etéreo momento, torcendo por um final feliz, talvez esperando que se abraçassem e se beijassem, saíssem correndo em câmera lenta, vestido dela voando ao vento no banco do carona de uma lambreta serpenteando por ruas estreitas, rindo à toa num cenário pra lá de romântico, deixando-nos órfãos de sua tristeza recém demonstrada. Mas, trazendo-nos à realidade, como um furacão ela passa pela porta e, me puxando pela mão, corre para o banheiro e grita, abafando a voz com as mãos: livre, graças a Deus! Nem sempre o que parece ser é o que é. Finais assim, só na televisão mesmo.

 

Patricia Garrote é advogada especialista em Direito Civil e Direito de Família, vice-presidente da Comissão de Direito de Família da OAB-DF, membro do IBDFam

www.patriciagarrote.adv.br – (61) 3364.0029

Última atualização em Qui, 28 de Agosto de 2014 10:28